No vagonite, a agulha nunca entra no pano. Ela passa por baixo de uns fiozinhos que ficam soltos por cima da trama do tecido próprio, e a linha fica deitada na frente, de uma beirada à outra. O desenho nasce do caminho que a linha faz entre esses fios.
Eu demorei pra entender isso olhando barrado pronto em loja. Via o zigue-zague colorido, virava a toalha e não achava nada atrás. Achei que era bordado de máquina, até comprar um retalho do tecido no armarinho e passar a agulha pela primeira vez.
Meu retalho tem uns 45 cm de largura. Com ele fiz duas amostras e depois um barrado num pano de copa, e é dessa experiência que sai tudo o que está aqui.
Os fios em relevo: onde a agulha entra
O tecido de vagonite é tramado com pares de fios que sobem pra cima da superfície e formam pontinhos alinhados. Eu chamo esses pares de fios em relevo. Eles aparecem em fileiras retas, e cada fileira fica deslocada meio passo em relação à de cima, como tijolos numa parede.
Passe a ponta do dedo de leve sobre o tecido. Os fios em relevo dão uma sensação de pontinhos ásperos, e o resto do pano é liso. Perto da janela fica ainda mais fácil: os pares fazem uma sombrinha.
A agulha entra por baixo de um par, sai do outro lado e segue. Ela pega só aqueles dois fios soltos. O corpo do pano fica intacto, e por isso o avesso sai limpo.
Vagonite e ponto cruz vistos pelo avesso
Quem já fez ponto cruz contando as casas do gráfico costuma estranhar o vagonite, porque a lógica muda. No ponto cruz a agulha atravessa o tecido em cada X e deixa trilhas de linha no verso. No vagonite a linha corre só pela frente.
| O que comparar | Ponto cruz | Vagonite |
|---|---|---|
| Onde a agulha passa | Atravessa o tecido nos furos da etamine | Por baixo dos fios em relevo, sem atravessar |
| Avesso | Linhas e pontinhos aparecem | Limpo, só o arremate nas pontas |
| Unidade de contagem | Casa (um quadradinho da trama) | Par de fios em relevo |
| Agulha | Ponta romba, de bordar | Ponta romba, mais comprida |
| Desenho típico | Figura fechada (flor, letra) | Faixa que se repete de uma beirada à outra |
| Começo | Pelo centro do desenho | Pelo meio da largura do pano |
A semelhança está no gráfico. Os dois são contados, e um erro de contagem no começo vai sendo copiado até o fim da faixa.
Agulha, linha e quanto cortar por carreira
A agulha precisa ter ponta arredondada. Uso a mesma agulha de tapeçaria que serve pra esconder ponta de fio no crochê. Ponta afiada fura o tecido sem você perceber, e o furo vira o erro que eu conto mais abaixo.
Na linha, comecei com mouliné usando os seis fios da meada juntos. Cobriu bem e deslizou fácil por baixo dos pares. Numa segunda amostra usei perlê, que é torcida e brilhante, e o zigue-zague ficou mais definido. Linha de costura comum ficou fina demais e sumiu no tecido.
O que mais me atrapalhou foi o comprimento. A linha do vagonite sobe e desce, então gasta bem mais que a largura do pano. Na primeira carreira cortei 1,20 m pra um retalho de 45 cm e a linha acabou faltando um palmo pra beirada. Emendar no meio da faixa aparece, então desmanchei.
Hoje faço uma conta simples: largura do pano vezes três, e começo pelo meio. Pros 45 cm do retalho, cortei 1,40 m. Puxei a linha até a metade ficar de cada lado, bordei a metade da direita, depois enfiei a outra ponta na agulha e fiz a metade da esquerda. Cada metade fica com uns 70 cm, que é um tamanho que não embola.
Zigue-zague alto gasta mais. Se o seu gráfico sobe cinco fileiras e desce cinco, faça a primeira carreira com uma sobra maior e meça o que sobrou. Esse número vale para as carreiras seguintes do mesmo desenho.
O primeiro barrado em zigue-zague, fio a fio
O desenho mais simples do vagonite é um zigue-zague que sobe quatro fileiras e desce quatro. Ele treina a contagem e mostra logo se a linha está puxada na medida.
- Dobre o pano ao meio na largura e marque o centro com um alfinete na fileira de baixo do barrado.
- Corte a linha na conta da largura vezes três e enfie na agulha.
- Passe por baixo do par de fios em relevo marcado pelo alfinete e puxe até a linha ficar com as duas metades iguais.
- Suba uma fileira e passe por baixo do par que fica na diagonal, à direita. Repita até subir quatro fileiras.
- Desça uma fileira de cada vez, sempre pegando o par da diagonal, até voltar à fileira de baixo.
- Puxe a linha devagar depois de cada par. Ela deve encostar no tecido sem franzir.
- Na beirada, vire o pano e passe a agulha por dentro da bainha uns 3 cm. Corte rente.
- Volte ao centro, enfie a outra metade da linha e repita do lado esquerdo, espelhando a subida.
A segunda carreira acompanha a primeira, uma fileira acima, com outra cor ou com a mesma. Na minha amostra fiz três carreiras de azul e uma de amarelo no meio. A Laura escolheu o amarelo e quis passar a agulha em dois pares, que ficaram mais frouxos que os meus. Deixei assim.
Se você nunca segurou agulha de bordar, vale passar antes pelo bordado livre com os três primeiros pontos. O vagonite é mais fácil de começar, mas o bastidor e a meada já ficam conhecidos.
Erros que estragaram as minhas amostras
Atravessar o tecido
Na primeira amostra, numa das subidas, a agulha pegou o par em relevo e um fio do pano junto. Na frente não notei nada. No avesso apareceu um pontinho azul, e quando puxei a linha o tecido fez uma pequena prega. Desmanchei até aquele ponto.
A causa foi enfiar a agulha de ponta, como quem costura. Hoje deito a agulha quase paralela ao pano e deslizo por baixo do par. Se a ponta encostar em resistência, ela entrou no tecido.
Puxar a linha demais
Linha esticada franze o barrado e encurta a faixa. Meu pano de copa ficou com a ponta direita uns 2 cm mais estreita que a esquerda na primeira lavagem, porque apertei mais desse lado. Linha frouxa demais faz barriga e engancha no dedo.
Errar a fileira na subida
Pular uma fileira no zigue-zague deixa um dente mais alto que os outros. O erro aparece a uns 10 cm de distância, e eu só vi quando segurei o pano longe. Agora conto em voz baixa a cada subida: um, dois, três, quatro, desce.
Onde o vagonite combina com o que você já faz
O vagonite fica bonito em pano de copa, toalhinha de lavabo e capa de almofada lisa. Se a peça já tem um barrado de crochê na toalha, uma faixa de vagonite logo acima completa o conjunto, desde que a toalha tenha a faixa de tecido próprio.
O que não funciona é tentar vagonite em tecido comum. Sem os fios em relevo, a agulha não tem onde passar e o ponto vira um alinhavo torto.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre vagonite e ponto cruz?
No ponto cruz a agulha atravessa o tecido em cada X. No vagonite ela passa só por baixo dos fios em relevo, e o avesso fica limpo.
Qual tecido serve para vagonite?
O tecido próprio, que tem os pares de fios em relevo na superfície. Em armarinho ele também aparece como faixa pronta em toalhas e panos.
Qual agulha e qual linha usar?
Agulha de ponta arredondada, como a de tapeçaria. Na linha, mouliné com os seis fios ou perlê. Linha de costura fica fina demais.
Quanto de linha cortar para uma carreira?
Eu corto a largura do pano vezes três e começo pelo meio. Em zigue-zague alto, meça a sobra da primeira carreira e ajuste as próximas.
O vagonite aparece no avesso?
Só nas pontas, que ficam presas dentro da bainha. Se aparecer linha no meio do avesso, a agulha atravessou o tecido.
Pra começar, compre um retalho pequeno do tecido e faça só uma carreira de zigue-zague de quatro fileiras com mouliné de seis fios. Se o avesso sair limpo e a faixa não franzir, já dá pra partir pro pano de copa.
